domingo, 12 de abril de 2009

No meu verso se faria injúria

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo
Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses
E era como se a água
Desejasse
(Hilda Hilst)
Pássaro humano - Analice Alves
Amo feito um inseto
Na tentativa incansável
De ser humano
E vencido pelo quebranto
De outro ser

Quero amar como um quero-quero
Que voa por voar
E canta por sobrevivência

Quero um sentimento
Perpétuo e sereno
Capaz de emudecer
Os meus sofrimentos
E tapar os meus ouvidos

Amor, abra a porta
Não há riscos
De eu ir embora
Suas mãos são garras
Que me prendem
E me ferem

Um minuto seria pouco
Uma vida seria nada
Pra te convencer
Que não sou o que aparento
Não sou assim tão frágil

Tenho meus orgulhos
Um refrão e um ditado
Tenho um coração sensível
E capaz
Que sofre e morde

Quero amar como um quero-quero
Que voa para pousar
E canta para ouvir

Não quero mais ser um pássaro perdido
Na obscuridade da vida
Sem carinho, sem ninho,
Sem saída...

domingo, 5 de abril de 2009

Palinódia

- Analice Alves
"E foi assim, amando, que descobri a grandeza de viver. Sem amor e sem dor não somos mortais, não somos humanos, somos pó."

Esqueça todos os meus poemas
Eles já não dizem nada quando, Júlio,
Me tomas em teus braços
E envolta em teu abraço
Sinto o poder de teu cansaço

Meu corpo já não se retrai
Ao ver o sol
Pois mais quente que o astro
É o teu calor

Júlio, não quero sombra!

A ti dedico todo o meu passado
Minhas viagens, minhas passagens
Meus aprendizados

Imagino tua juventude
Com espinhas e dilemas
E mesmo assim o amo
Meu menino afoito

Ao teu lado não há tristeza
Meu único choro é o gemido
Do coito

Faça-me cativa
Pois és mais que metade
És meu completo todo

E minha alma só se eleva
Quando ponho o meu corpo
Sobre o teu corpo.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Ruídos

- Analice Alves

Sei que ele quer me tocar
Pra saber se eu deixo penetrar

E lá dentro
Terá as respostas
Para tudo aquilo que duvida

Saberá se é fundo e intenso
Saberá que o meu cansaço
É quente, seco e puro

E que meu gemido
É um grito agudo

Sei que ele quer me tocar
Pra saber se a donzela de outrora
Ainda o é
Pra deixar de me ver apenas como poeta
E me ver como mulher

E lá dentro
Terá as palavras
Que tanto balbucio

E a moça de tão bom parecer
Produzirá um ruído
Escreverá uma cantiga de amigo

E o meu gemido
Será um grito sem força
Precedido de um sono conturbado.

E em sonhos, meu amigo
Perguntarei-lhe se foi bom
E assim, acenderemos os cigarros...

(31/03/09)

segunda-feira, 30 de março de 2009

IV

– Analice Alves

Feri meu corpo
Com o pior dos açoites
Amo, não nego
Amo como a noite
Que desiste de ver o dia
E dorme...

Se um dia perguntarem
Por onde ando
Não responda
Fique mudo
Coloque a mão
Em seu coração

Lá habitei por anos
Percorri esquinas
E me perdi de mim
Encontrei um tempo
Diferente deste que vivemos
Alimentei-me de amor

Feri meu corpo
Com o pior dos orgulhos
O desamor não é vaidade
É vantagem de gente mesquinha
Que desiste da vida
E morre...

Se um dia me perguntarem
Por onde andas
Não responderei
Ficarei muda
Porque, de fato, não sei.

(30/03/09)

terça-feira, 24 de março de 2009

Traços do tempo

– Analice Alves

Um sujeito vestido de preto
Em pleno carnaval
Passa a ser impuro
Por deixar de ser ele

Olha-se no espelho
Abre a boca num bocejo
Ajeita o cabelo
Traços do nosso tempo

Por não gostar de mistura
Pede um cow-boy:
Exceto as mãos dela
Unidas às suas

O mundo atual o corrói
Mas nada que doa tanto
Respira fundo, lava o rosto
Está pronto

Um sujeito vestido de branco
Em pleno enterro
Passa a ser impuro
Pois mostra uma insegurança tênue
De seu próprio viver

Não é solução nem problema
Não é vírgula e nem ponto
Não há liberdade
Está preso ao corpo da amada

Como a palavra na garganta
Como ao nome que desconhece

Se, pelo menos, soubesse
Como se chama a sua amada
Daria pra procurar na lista telefônica
Ou fazer uma simpatia
Com seus nomes numa flor amarela

Mas não sabe como se chama
Não sabe sua identidade
Não possui um cartão pessoal
Com seus serviços e telefones

Tem apenas olhos para vê-la
Coração para senti-la
Palavras para lhe dizer “bom dia”

Olha-se no espelho
Passa a mão na barba
Vê as horas no relógio público
Traços do nosso tempo

O amor o corrói
Mas nada que doa tanto
Respira fundo, chora um pouco
Mas não está pronto...

(24/03/2009)

terça-feira, 17 de março de 2009

Poesia é complicação

"Poesia é complicação. É doença da linguagem. (...)" (Ruy Bello)

Por que?
(pensem nisso)


Reticentimentos - Analice Alves

quando leio um poema
e ele nada me diz
eu des-sinto
é uma morte pequena
porém pior do que morte matada
é suicídio poético

o poeta que escreve
encantamentos numa folha de papel
coitado! nao entende o seu poema
este já não é mais seu
nem meu
é de tudo e de todos

o poeta que escreve
abobrinhas ou caviar
é um poeta, certamente
mas mente como um ator
como Pessoa, como gente.

o poeta que acha
que entende tudo
não passa de farsante
não entende porra nenhuma
nem mesmo as sobras da sobra

o poeta que finge
ah, esse sim é grande
mas mesmo assim
não alcança a totalidade
de sua obra...


17/03/09

terça-feira, 10 de março de 2009

comida é pasto

1. Para que poetas em tempos de fome?

- A poesia sempre foi vista como algo secundário. A fome, a violência, a realidade social em que vivemos sempre foram muito mais importantes e herméticas do que um poema parnasiano. A pergunta acima tem mais de 200 anos e participa de nosso presente. Afinal, quando foi que não vivemos tempos de fome? Sempre esbarramos na mesma problemática. A Literatura sempre sobreviveu aos tempos (de fome), porque também existe a fome de cultura, a sede de informação, o tesão por livros e conhecimento. Poetas e poesias em tempos de realidade escancarada são válvulas de escape, são plataformas para o sonho. A poesia pode ser um mundo particular, porém a Literatura tem sua função acima de tudo, tem seu lugar no real e não apenas no imaginário, tem seu espaço na consciência social e nos punhos de um poeta revolucionário. Poetas são vistos como vagabundos ou menos importantes do que engenheiros, por exemplo. Cada um tem sua importância e, em tempos de fome, todos são influenciados pelo mesmo mal. O poeta, no entanto, é o capaz de praticar a paralaxe, de enxergar o problema em diferentes pontos de vista, de colocar o objeto de estudo (a fome, por exemplo) num ângulo onde todos possam entendê-lo com maior clareza.

Poema - Analice Alves

Olho para o futuro com louvor
É uma caixinha de bombom
E por mais que saibamos o sabor
Não sabemos se dentro dele
Haverá licor.