quarta-feira, 8 de julho de 2009

Despedida



Se me perco na ventura
Do teu beijo
E o teu desejo
É a tormenta que anseio
Nada posso desejar
Além dos meus seios em tuas mãos
E meu toque em teu corpo

Se me encontro
Nas mentiras que me dizes
E nas promessas
Que não fazes,
Encontro-me perdida
Num mundo de verdades,
Perco-me dentro da alma que habito,
Não me completas

Vejo o tempo passar
Pela queda dos cabelos
Pelo balanço do mar

A areia ziguezagueando na ampulheta
Estou certa, não estou de passagem,
Nem que a vida seja apenas
Tocar-te punheta
Fazer-te feliz com meu toque
Selvagem

Veja a nós perdidos
Em busca de um amor eterno
Uma paixão plena na estrada da vida
Se o nosso amor não tem nexo,
Só sexo
Basta respirar o ar
Da despedida

terça-feira, 30 de junho de 2009

Estrada

- Analice Alves
Os carros passam. Eu passo. Como o cheiro do sêmen em nossos lençóis. Como o corpo crucificado por um pecado à toa. Como a solidão que dói. O tempo passa. Eu passo. Palavra escondida na língua. Beijo penetrado na boca. Fora do ar. Garoa que embaça meu vidro. Inverno que congela um coração já morto. Construo feito um operário. Estou só. Você também. Na estrada tudo é pior e maior. Tudo dói. Somos dois. Não tenho razão. Vou.

São Paulo, 26 de junho de 2009.

domingo, 21 de junho de 2009

Um momento



Meu amor, penetre o que tens
De maior e mais valioso
No meio de mim
E num movimento de ida
E volta
Venha pra ficar

Abra as portas do meu vestido
Tire a cor da minha boca que é tua
Enfie tua língua no meu céu
Procurando a lua

Beije-me o ventre
Acaricie minha barriga
Como se nela carregasse um filho teu
Jogue-me na cama, desfaça-me as tranças

E o dedo que é médio
Passa a ser intermédio
Do pouco falo
- o que não te faltas
Olha-me no olho
Recite frases feitas
Enalteça o que tens de maior
E mais valioso

O cheiro do gozo
Impregnado na cama
Já é passado, já é passado
O presente é chama, brasa ainda quente
Chuva de verão

Na hora, no ato
Perco-me de mim
Somos nós um único membro
Eu a abrir a janela
E você a me chover por dentro

- Um momento, um momento!

O dia termina
E a noite é uma criança
Encrenqueira
Visto o vestido, refaço minhas tranças
Para me desconsertar de novo
E por inteira

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Oferta

- Analice Alves

Toma meu peito, amor
E se faça nele presente
Escreva poemas em meu ser
Tatue teu nome em meu ventre
Arranque os cabelos

Toma meu amor, querido
E aproveite bem enquanto é tempo
O vento já balançou os meus cabelos
Num eterno descontento

Toma meu sangue, amor
E inclua minhas dores em tuas preces
Acenda uma vela ao santo que confias
Ofereça um ramo em meu nome

Toma meu suor, amor
E se esforce junto a mim
Batalhe pelo dia de ontem no amanhã
Enalteça o que silencio sem mentir

Toma este vinho, meu bem
E faça o que fiz em tua ausência
Pedi perdão, chorei, senti tua falta
Caí em desespero

Toma este poema, amor
E guarde como um regato extremo de bondade
Não escrevo para quem chamo
Escrevo o que vivo
E vivo para os que amo.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Máquina de viver

– Analice Alves

Eu me lembro
Das noites em claro
E dos dias escuros
Do sol e da lua nova

A realidade era um sonho
Um conjunto de frutas frescas
Caídas de uma árvore antiga
O nome escondido nos lábios
O aperto num peito vivo

Eu me lembro
Da casa e de seus barulhos
Da lâmpada queimada
Pelo medo do escuro
Dos quadros tortos após a ventania

Os livros do avô que não conheci
Enchiam-se de poeira e vida
Embelezavam as prateleiras
Do meu quarto de dormir

Ali, era certo, estava eu seguro de mim
Escapava dos perigos externos
Encontrava a essência do que era

Hoje mal posso esperar
Não tenho planos, tenho passados

Encontro-me no dedo anular
De um desconhecido
Meu coração já não sente
É puro órgão
Máquina complexa de viver

E o meu sorriso era uma felicidade silenciosa
A qual os outros se alegravam em ver
Os beijos e abraços eram verdadeiros, honestos
Eram cheios de um cheiro de amor
Afeto

E eu me lembro
De tudo o que um dia fui
Das tardes em que paralisava meus olhos
Num ponto da janela
E imaginava se faria falta quando morresse

Hoje me vejo sentindo falta
Dos que já foram
Dos que já fui

Meu choro é pobre em lágrimas amargas
De arrependimento, de não ter dito
De ter desperdiçado meu sofrimento
Com coisas pequenas
Hoje não choro, não sofro
Meu coração é puro órgão
Complexa máquina de viver.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

My mind

– Analice Alves

You are in my mind
My mind is your house
My heart is your world

You are the only star I can see
The only voice I can hear
You are the song I listen patiently

I can’t live without your eyes
I can’t breathe without your smell
I can’t live, because I don’t want to live
Without you

You are my house
You are my world
I forgot the others words
I just want to speak your name

You are in my mind
And don’t tell me
I need forget you
I can’t!
My mind is your house,
Don’t you remember?

Leave me in peace
Forget my existence
Let me cry this love
Let me speak your name
As long as I live

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Sempre existiu cantando

Hoje, finalmente, foi a apresentação oral do meu trabalho sobre a transmutação musical dos poemas de Hilda Hilst feita por Zeca Baleiro. Um peso a menos em minhas costas, um ensinamento a mais em minha vida. Descobrir os poemas de Hilda foi, mais do que um conhecimento literário, uma lição de vida e de poesia. Afinal, ser poeta é um ofício. As músicas foram musicadas de modo magnífico e nem uma prova de latim básico II tirou o bom humor que tomou conta do meu dia por conta deste trabalho. Além de tudo, acho que quem lê e conhece meus poemas, sabe que sofri uma influência grande da Hilda Hilst, ou melhor, tentei imita-la, tentei ser a Hilda, mas isso é tarefa impossível e voltei às raízes.


Dez chamamentos ao amigo - Hilda Hilst

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo.
Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei.
E há tanto tempo
Entendo que sou terra.
Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu.
Pastor e nauta
Olha-me de novo.
Com menos altivez.
E mais atento.