– Analice Alves
Amor meu,
Se sigo o infinito que me deste
e no final não cheguei ao final,
tendo em vista ser o inexistente,
juro que me iludo com certas palavras
e choro pela ausência de um amor eterno.
Sinto que me queres, sim, sinto.
Mas muito mais amor e saudades guardo eu em meu peito aberto.
Quero teu cheiro, teu suor, tuas ironias.
Quero brigar contigo como almas íntimas que se ferem sem motivo.
Onde estás? Quando voltas? Não sentes pena de mim?
Sinto que no fim das contas tudo é ventania
e meu ponto final é mais exclamativo
do que teu nome pronunciado por minha boca a cada volta inesperada.
Se eu te amo? Perguntas tolas e óbvias
não têm vez em meus pensamentos.
Se perco meu tempo a te amar,
se perco meu vento a respirar teu cheiro
e se estas perdas pra mim são ganhos,
é claro, meu amor, eu te amo.
(30/07/2009)
terça-feira, 11 de agosto de 2009
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Eu não
– Analice Alves
Tudo foi embora
E como o tudo engloba o nada
Fiquei sem tudo e sem nada
A morte chegou e levou não apenas a vida
Mas a morte das pequenas coisas
Que faria minha poesia
E tudo foi embora: o corpo do homem que amo
As filhas gêmeas que não tive
E a cicatriz curada com álcool barato
A morte chegou e levou não apenas os vivos
Mas os mortos que me apareciam à noite
Debruçados na varanda a sussurrar em meus ouvidos
E tudo foi embora: os sonhos realizados e os planos
Ainda no papel. Os avós envelhecidos e os fetos
Ainda perdidos em meu ventre feito arranha-céu.
A morte veio sem medo, sem dor. Agonia maior
Senti em vida quando dei o primeiro beijo ou perdi
O apartamento em leilão. A morte veio e eu não.
Não entendi o seu grito. Fez-me um “psiu”, fingi que
Não era comigo. Mas ela me chamou pelo nome, apontou-me
com um dedo de fogo e sabia mais sobre a vida do que a própria.
E ela pula amarelinha, se enturma com as crianças e sente
Pena de as levar consigo. Os adultos estressados no trânsito,
Coitados, não são dignos de pena. Merecem um susto.
E eu fui embora. Com medo, a ouvir gritos de longe.
Alguém a me chamar do outro lado da ponte. Era o corpo
Do homem que amo e as filhas gêmeas que não tive.
- Era o futuro.
Tudo foi embora
E como o tudo engloba o nada
Fiquei sem tudo e sem nada
A morte chegou e levou não apenas a vida
Mas a morte das pequenas coisas
Que faria minha poesia
E tudo foi embora: o corpo do homem que amo
As filhas gêmeas que não tive
E a cicatriz curada com álcool barato
A morte chegou e levou não apenas os vivos
Mas os mortos que me apareciam à noite
Debruçados na varanda a sussurrar em meus ouvidos
E tudo foi embora: os sonhos realizados e os planos
Ainda no papel. Os avós envelhecidos e os fetos
Ainda perdidos em meu ventre feito arranha-céu.
A morte veio sem medo, sem dor. Agonia maior
Senti em vida quando dei o primeiro beijo ou perdi
O apartamento em leilão. A morte veio e eu não.
Não entendi o seu grito. Fez-me um “psiu”, fingi que
Não era comigo. Mas ela me chamou pelo nome, apontou-me
com um dedo de fogo e sabia mais sobre a vida do que a própria.
E ela pula amarelinha, se enturma com as crianças e sente
Pena de as levar consigo. Os adultos estressados no trânsito,
Coitados, não são dignos de pena. Merecem um susto.
E eu fui embora. Com medo, a ouvir gritos de longe.
Alguém a me chamar do outro lado da ponte. Era o corpo
Do homem que amo e as filhas gêmeas que não tive.
- Era o futuro.
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Proesia do Desejo
- Ana Lee C. e Pedro Igor
É quando a noite cai, silente,
e quando a voz resolve, em sussurro
seguir a lua que se ergue novamente
contra o mesmo eu de sempre, então urro.
E a lua me mostra os teus olhos, meu menino
Como bolas de gude com direção certa a atingir meu peito
A admitir ser frágil e fraco, nascido cansado
E pronto pra ser meu de direito
E esse estranho dueto feito à lua
reveste dono e possuído com fervor
de modo que pela branca luz e nua
as mentes de ambos era mente de amor.
Amor revestido de agonias simplórias
Visto como batalha e não como vitória
Uma luta contínua da qual saímos vencidos
Feito poemas rabiscados, num cômodo esquecidos
E a cada rascunho que fazemos em nós
cresce o desejo por ser quem se é
sem máscaras, conceitos ou voz
Mas ser essência, mesmo que doa, em nossa fé
O que nos separa é mais que uma ponte
É uma fonte insegura, um teto sem chão
Mesmo nua me dispo sem pudor
Minha fé existe, tu és minha religião
E a beleza de cada beijo em verso
contaremos dia-a-dia como em prosa
nossa vergonha será santa e o universo
de nosso desejo será profano como a rosa
É quando a noite cai, silente,
e quando a voz resolve, em sussurro
seguir a lua que se ergue novamente
contra o mesmo eu de sempre, então urro.
E a lua me mostra os teus olhos, meu menino
Como bolas de gude com direção certa a atingir meu peito
A admitir ser frágil e fraco, nascido cansado
E pronto pra ser meu de direito
E esse estranho dueto feito à lua
reveste dono e possuído com fervor
de modo que pela branca luz e nua
as mentes de ambos era mente de amor.
Amor revestido de agonias simplórias
Visto como batalha e não como vitória
Uma luta contínua da qual saímos vencidos
Feito poemas rabiscados, num cômodo esquecidos
E a cada rascunho que fazemos em nós
cresce o desejo por ser quem se é
sem máscaras, conceitos ou voz
Mas ser essência, mesmo que doa, em nossa fé
O que nos separa é mais que uma ponte
É uma fonte insegura, um teto sem chão
Mesmo nua me dispo sem pudor
Minha fé existe, tu és minha religião
E a beleza de cada beijo em verso
contaremos dia-a-dia como em prosa
nossa vergonha será santa e o universo
de nosso desejo será profano como a rosa
sábado, 1 de agosto de 2009
Contrário
- Analice Alves
se o tempo tivesse um contrário
e esse contrário apagasse o que o tempo construiu
eu compraria um bocado desse oposto
gramas, quilos, litros, metros
apagar o que foi vivido
parece feio e contra a natureza que me foi imposta
mas seria o único meio de esquecer tudo aquilo que fui
por você
tudo aquilo que deixei de ser por mim
pra me doar de corpo e alma
as fotos perdidas no chão
são produtos de uma história hoje sem direção e sentido
falta enredo, falta meio e fim
sobram freios
às vezes dá medo mexer no que foi vivido
o passado é um cadáver apodrecido em meu jardim
enrolado num tapete
sujando meu carpete
é tudo aquilo que está esquecido num canto qualquer
e, ao mesmo tempo, está presente como o relógio em meu pulso
como o telefone fora do gancho com a secretária ligada
- o passado manda lembranças
se na mercearia da esquina
vendesse o contrário do tempo
certamente eu compraria
mesmo correndo o risco de perder todo o tempo que me resta
mesmo se fosse caro e eu tivesse de vender meus trajes de agora
e meus pijamas
eu compraria apenas com o intuito de desfazer
o que foi feito
de ter o tempo de ponta cabeça
desescorrendo em meus dedos
o ponteiro correndo ao contrário
o sino a desdobrar.
se o tempo tivesse um contrário
e esse contrário apagasse o que o tempo construiu
eu compraria um bocado desse oposto
gramas, quilos, litros, metros
apagar o que foi vivido
parece feio e contra a natureza que me foi imposta
mas seria o único meio de esquecer tudo aquilo que fui
por você
tudo aquilo que deixei de ser por mim
pra me doar de corpo e alma
as fotos perdidas no chão
são produtos de uma história hoje sem direção e sentido
falta enredo, falta meio e fim
sobram freios
às vezes dá medo mexer no que foi vivido
o passado é um cadáver apodrecido em meu jardim
enrolado num tapete
sujando meu carpete
é tudo aquilo que está esquecido num canto qualquer
e, ao mesmo tempo, está presente como o relógio em meu pulso
como o telefone fora do gancho com a secretária ligada
- o passado manda lembranças
se na mercearia da esquina
vendesse o contrário do tempo
certamente eu compraria
mesmo correndo o risco de perder todo o tempo que me resta
mesmo se fosse caro e eu tivesse de vender meus trajes de agora
e meus pijamas
eu compraria apenas com o intuito de desfazer
o que foi feito
de ter o tempo de ponta cabeça
desescorrendo em meus dedos
o ponteiro correndo ao contrário
o sino a desdobrar.
terça-feira, 28 de julho de 2009
Precipício
- Analice Alves
Parto do princício
de que te amo
e assim pensando
imagino que caio
num abismo sem deus
num mundo sem inércia
numa jaula com leões
Parto do pressuposto
de que te odeio
e assim conscientizo-me
que sou água, terra, fogo
e o ar me falta
e eu quero fechar a janela
e sentir calor
abrir tua camisa
arrebentar teus botões
deixar meu suor misturar-se
às lágrimas amargas que já não choras
não tenho motivos, meu amor
se o sêmen se espalhou sobre o meu corpo
se o gozo é maior que o teu sufoco
se me tocas e nada sinto
és pequeno.
Parto do princício
de que te amo
e assim pensando
imagino que caio
num abismo sem deus
num mundo sem inércia
numa jaula com leões
Parto do pressuposto
de que te odeio
e assim conscientizo-me
que sou água, terra, fogo
e o ar me falta
e eu quero fechar a janela
e sentir calor
abrir tua camisa
arrebentar teus botões
deixar meu suor misturar-se
às lágrimas amargas que já não choras
não tenho motivos, meu amor
se o sêmen se espalhou sobre o meu corpo
se o gozo é maior que o teu sufoco
se me tocas e nada sinto
és pequeno.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Despedida
Se me perco na ventura
Do teu beijo
E o teu desejo
É a tormenta que anseio
Nada posso desejar
Além dos meus seios em tuas mãos
E meu toque em teu corpo
Se me encontro
Nas mentiras que me dizes
E nas promessas
Que não fazes,
Encontro-me perdida
Num mundo de verdades,
Perco-me dentro da alma que habito,
Não me completas
Vejo o tempo passar
Pela queda dos cabelos
Pelo balanço do mar
A areia ziguezagueando na ampulheta
Estou certa, não estou de passagem,
Nem que a vida seja apenas
Tocar-te punheta
Fazer-te feliz com meu toque
Selvagem
Veja a nós perdidos
Em busca de um amor eterno
Uma paixão plena na estrada da vida
Se o nosso amor não tem nexo,
Só sexo
Basta respirar o ar
Da despedida
terça-feira, 30 de junho de 2009
Estrada
- Analice Alves
Os carros passam. Eu passo. Como o cheiro do sêmen em nossos lençóis. Como o corpo crucificado por um pecado à toa. Como a solidão que dói. O tempo passa. Eu passo. Palavra escondida na língua. Beijo penetrado na boca. Fora do ar. Garoa que embaça meu vidro. Inverno que congela um coração já morto. Construo feito um operário. Estou só. Você também. Na estrada tudo é pior e maior. Tudo dói. Somos dois. Não tenho razão. Vou.
São Paulo, 26 de junho de 2009.
São Paulo, 26 de junho de 2009.
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