sexta-feira, 16 de novembro de 2007

não chore ainda não


Sem palavras - Analice Alves

Já não vejo graça em viver assim
Perdição, loucura tomam conta de mim
Já nem sei contar quantos sonhos perdi
Quero mergulhar no teu coração
Mentir a verdade que eu mesma calei
Juntar o amor que resta pra virar paixão

Como eu queria escutar tua voz
O teu barulho ao andar pela casa
Não devia pensar tanto no depois
O futuro não chega, o presente me arrasa

O lápis no papel já não escreve nada
Meu amor por você, desculpe
Mas não tenho palavras
Choro no vazio por querer-te
Sofro no silêncio por pensar em ti
Quero te amar em cada presente
Quanto ao futuro, a Deus pertence

Fale-me de amor, de dor, de ausência
Minta, diga ao menos uma vez que sentiu falta
Minha falta, de repente

Diga que a minha culpa é toda sua
E que a loucura que sinto
É amor e você entende

Se quiser, posso ficar em tuas mãos
Não te amo mais, porque esse amor não tem limite
Não choro mais, porque apesar de triste
Meu amor, não duvide
Mas procuro a paz, acredite
(dentro de ti)


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"Faça o que quiser
Eu me rendo
Mas me faça feliz..."

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Meu coração é um violão sem cordas


Restos – Analice Alves

Vivo de restos
De restos não quero viver
A vida é uma linda estrada
Mas empoeirada se não tenho você

Não diga que o tempo cicatriza a ferida
A página se vira e a vida continua
A minha rua é um beco sem saída
A culpa é toda sua

Essa música me lembra o teu jeito
Tudo o que vejo me traz você
Perco-me no breu do meu peito
Não há luz, não há paz se não posso te ter

Quero trilhar o caminho que segues
Quero colher o que você plantou
Quero dormir em teus braços morenos
Quero cumprir o que você jurou

Pago teus pecados, teus erros, teus medos
Tuas dívidas e os teus dividendos
Curo as feridas, as rugas da vida
As marcas do tempo

Não quero o teu aperto de mão
Muito menos o teu ombro amigo
Quero o teu toque, tua boca, teu beijo
Teu coração sempre comigo

Por favor, tente compreender
Amor como o meu
O tempo não pode apagar
É um sentimento que fere e grita
Só você é capaz de silenciar

Talvez esse amor
Se converta em carinho
Quem me dera pensar em você sem sofrer!
Daí, seguirei o meu caminho
E levarei a vida tentando viver

domingo, 11 de novembro de 2007

São todos humanos


Os peixes não duram muito – Analice Alves

Todo mundo morre de medo de perder alguma coisa ou alguém. E eu não poderia ser diferente. Sempre sofri quando perdia um brinquedo, um lápis colorido, um cd, um livro. A sorte é que tudo aquilo era substituível por mais importante que fossem pra mim. Cds autografados são mera vaidade, brinquedos quebram logo. O chato é quando perdemos alguém. Chamo de alguém não apenas os seres humanos que cercam os nossos dias e fazem a nossa vida existir, eles também, mas refiro-me também aos animais. O acontecimento mais triste pra uma criança é perder um animal de estimação. Seja coelho, cachorro, gato, passarinho, papagaio, peixe. Não importa. Lembro que quando eu tinha uns seis anos de idade, ganhei uma tartaruga chamada Sininho, encontrada no meio da rua por um vizinho da minha tia. Não tinha muito contato com ela, apesar de sempre falar dela com muito orgulho pros meus coleguinhas de classe que tinham cachorros, gatos, mas nunca uma tartaruga. Ela morava na casa do meu tio, porque como eu morava em apartamento, era impossível cuidar de um bicho daquele tamanho e hábitos. Logo ela morreu e eu não chorei. Passava dias sem vê-la e isso me afastou do possível afeto que eu poderia ter por ela. Meus pais resolveram me dar um passarinho. Era lindo, laranja, a minha cor favorita quando criança, cantava de manhã e acordava todo mundo. Durou bastante tempo, mas não o suficiente. Lembro que estávamos de férias e fomos à casa da minha tia pegar uma piscina. Chegamos cedo em casa pra não deixá-lo sozinho, mas quando chegamos lá estava ele, caído no solo da gaiola, sem comer, sem cantar, sem vida. Nesse dia, chorei. Não entendi o porquê que ele tinha morrido, era tão bem cuidado, levávamos ele pros lugares quando sabíamos que não chegaríamos cedo. Depois ganhei um peixe e este durou pouco. Peixes não vivem muito. Segundo meu pai, Deus os fez para que tivessem uma existência curta. O nome dele era Japona, era japonês e, claro, laranja. Depois ganhei uma cachorra que está comigo há quase oito anos e muito bem de saúde. O chato é que agora, ao dar comida ao meu peixe de mais de um ano, ele não estava vivo, estava estatelado no chão, estava morto e eu estou chorando agora, enquanto escrevo.

OBS: Postagem dedicada a Obina, meu peixe beta que acaba de deixar o mundo. Não sou flamenguista, mas dei esse nome porque meu irmão e meu pai são flamenguistas e, na época, tive medo de eles brigarem comigo por ter comprado um peixe sem a permissão de todos.

11/11/07

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

quero que sejas bem feliz


Se eu amasse a vida assim como te amo – Analice Alves

Se eu amasse a vida assim como te amo, certamente enlouqueceria por não saber a quem amar mais. Se eu amasse a espera assim como amo a chegada, te esperaria por toda a eternidade. Se eu amasse a imaginação, assim como amo a realidade, creio que só viveria de sonhos. Se eu amasse a idéia, assim como amo sua concretização, construiria outro coração com mil tijolos. Se eu amasse a fala, assim como amo a palavra, pode ter certeza, estaria agora em sua frente, dizendo bobagens.


quinta-feira, 1 de novembro de 2007

O computador tem memória, o homem recordação




Recordações do homem sem merecimentos - Analice Alves

De fato, não merecia muita coisa. As minhas impressões digitais nos cabelos dela era o máximo que ela poderia ter de mim. Não que eu tenha me tornado um homem inescrupuloso, sem caráter ou com personalidade demais. Tornei-me um homem rude, de pouca fala e muita mania. Nunca fui egoísta e, sinceramente, ela não merecia o amor que durante tanto tempo depositei nela, não merecia o desespero que eu senti quando a vi beijando um homem mais bonito e rico que eu. Vendo as fotos, até soa engraçado. Como os sorrisos daquela miserável eram falsos, como ela teve coragem de me fazer feliz, de me jurar amor eterno. Eu era feliz, eu tinha a minha vida simples e humilde, mas era feliz. Não chorava como choro hoje: todos os dias. Conseguia ficar meses sem derramar uma lágrima, sem reclamar da vida, do salário, dos políticos, do dólar lá embaixo, isso, simplesmente, porque eu amava e, por isso, era feliz. Rasguei todas as cartas, mas tenho todas decoradas na memória. Tinha uma caixinha de sapato com tudo o que aquela vadia me deu. Aqueles bilhetes que ela me dera certa de que eu não guardaria. Aquela foto 3x4 horrorosa, ela com cara de morta, branca, combalida, mas naquela época, magnífica pra mim. Coloquei fogo em tudo. Fogo mesmo. Evitei rasgar apenas. Deixei a preguiça de lado e acendi a lareira. Joguei a caixa toda, sem dó nem piedade, e pra completar, ainda dei uma gargalhada de vilão mexicano. Depois do ritual, tomei um banho, lavei meu corpo sujo de tanto contato com aquela piranha. Lá se foram as possibilidades de lembrança.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Don't take your love to town


A menina e a cidade – Analice Alves

Quando na janela observava os tumultos externos, ela apoiava a cabeça nas mãos qual criança entediada ou brava com os detalhes dos adultos. Sabia muito bem que observar os carros que passam, as pessoas que correm, as árvores que permanecem, não era nenhuma ocupação importante. Por isso, logo seu pai interrompia a sua auto-análise e pedia um favor à filha. Demorava horas pra perceber que o pai falava com ela. Mesmo fazendo os favores do pai como cortar pedaços de barbantes para fazeres alheios, descascar umas laranjas para uma laranjada ou algo rápido como pegar a escada trancafiada no quartinho de entulhos, continuava viajando em seu mundo particular. Não pronunciava uma só palavra desde que nascera e isso a tornara um tanto boba e era feita de tal por todos os seus. Não comia quase nada, não tinha prazeres enormes, não tinha uma vida propriamente dita. Passava os dias como se eles fossem meras repetições, meros flash back, um replay da vida. O pior de tudo é que ela sabia que a vida dela não era um mar de rosas e que só era amada pela cidade natal. Quando ela chegava na cidade de uma viagem longa ou de um passeio matutino, a cidade abria os braços pra menina, era como se o céu azulasse de repente, como se as pessoas apressadas resolvessem parar para planejar o futuro próximo. Às vezes, até música tocava e a menina muda dançava. A cidade a amava com um sutil agradecimento por ela olhá-la sempre pela janela, por ela, com uma vista peculiar de olhos de águia, ser a única da cidade a parar os seus fazeres para admirar as belezas divinas. Não sabia acordar tarde, na verdade, não tinha noção de tempo. Não tinha muita noção das coisas naturais, apesar de amá-las. A menina que amava tudo ao redor e não era amada pelo todo, às vezes, irritava-se com o amor infinito que sentia por tudo. Sabia que amar tudo não era normal, era chato, antiquado, démodé. A menina que abria a janela e observava o mundo, sabia que enquanto ela envelhecia, a cidade se modernizava.

sábado, 27 de outubro de 2007

Se acaso me quiseres...

Meu coração - Analice Alves

Tenho um coração
Que pode parar
Em cada esquina

Tenho um coração
Que só funciona
Às segundas, terças e quintas
ALMOÇO DE FAMÍLIA – Analice Alves


Enquanto o filho está assistindo ao jogo de futebol de seu time derrotado há tempos, a filha busca consolo aos amores perdidos lendo contos de fada com a vizinha do sexto andar. O marido conserta os aparatos eletrodomésticos resmungando para o filho que nada adianta torcer por um time como esse. O filho ignora as palavras do pai, afinal time é time. A mãe pede ajuda à filha para arrumar a mesa do almoço e a menina de cara feia levanta-se, fecha o livro e vai quase voltando. A mãe, educadamente, convida a menina do sexto andar a almoçar com a família, mas a menina recusa o convite dizendo que é aniversário da avó e todos devem almoçar juntos em sua casa.
Na cozinha a mãe mexe pra lá e pra cá a comida que ninguém sabe direito o que é enquanto o filho com a boca cheia grita bem alto: Puta que pariu! E o pai nervoso com tamanha baixaria puxa as orelhas do menino. A mãe diz que é normal afinal homem diz palavrão mesmo, mulher é que não pode. O palavrão além de ser a vulgarização da língua portuguesa e das outras também, não deixa de ser um desabafo, parece que quando falamos um palavrão todo o nervosismo sai junto com ele. O pai vê que realmente é natural e solta a orelha do filho. A menina sem fome, diz que prefere ficar lendo no quarto, mas logo as boas maneiras não deixam.
Finalmente a hora do almoço chega e eles almoçam felizes e famintos. O pai coitado come e nem sabe ao certo o que está comendo, ou melhor, ninguém sabe o que está comendo. Até que no alto falante na rua ouve-se a promoção do dia, cachorro vira lata ao molho ketchup.